Nada Será Como Antes: A Biografia Definitiva de Elis Regina
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Capítulos do livro trazem relatos que podem chocar o leitor
Autor: Humberto Oliveira
Há dez anos, o jornalista Júlio Maria lançou a biografia definitiva da cantora Elis Regina: Nada Será Como Antes. Agora, pela Companhia das Letras, o biógrafo relançou sua obra com título e capa diferentes, em edição ampliada e revisada.
Li duas vezes a primeira edição e estou prestes a finalizar a leitura da nova, mas não vi muitas diferenças, a não ser a inserção de algumas informações que, sinceramente, não fazem diferença, pelo menos para mim. Não tem importância. O que vale é que Elis: Nada Será Como Antes é, de fato, a biografia definitiva da cantora.
Maria mergulhou fundo na história da cantora gaúcha e conta tudo sem censura, sem panos quentes ou qualquer resquício de biografia escrita por um fã. Trata-se de um texto impecável de um excelente escritor, que fez seu trabalho com excelência e entrega ao leitor um livro sincero, sem ser desrespeitoso, objetivo, direto e acima de tudo informativo e verdadeiro em sua narrativa.
O livro começa com a morte de Elis e, nos 25 capítulos que se seguem, acompanhamos a carreira, as brigas homéricas, as amizades, os amores oficiais, os namorados e amantes, e os relacionamentos conturbados com Ronaldo Bôscoli, que a transformou e transformou sua carreira.
O casamento com César Camargo Mariano, a princípio com muita música e rosas, mas depois pedras e espinhos. A lista de namorados inclui Solano Ribeiro, Nelson Motta, Guilherme Arantes e até Fábio Jr. Ou seja, não era à toa o apelido de “Pimentinha”, e não apenas por conta do gênio forte e das inseguranças da pisciana Elis Regina.
A galeria de personalidades marcantes que passaram pela vida de Elis no meio artístico é rica e diversificada: Jair Rodrigues, Wilson Simonal, Jorge Ben, Gilberto Gil, Caetano Veloso, André Midani, Roberto de Oliveira, Renato Teixeira, Marcos Mazzola, Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Edu Lobo, Toquinho, Fagner, Belchior, Rita Lee, Lennie Dale, Miele, Adoniran Barbosa, Paulo César Pinheiro, Fernando Faro, Baden Powell, Carlos Imperial, Erasmo e Roberto Carlos, Zimbo Trio, João Bosco, Aldir Blanc, Gonzaguinha, Ivan Lins, Roberto Menescal, Tom Jobim — único compositor de quem gravou um disco inteiro com seu repertório, o antológico Elis & Tom, lançado em 1974 — e tantos outros músicos, letristas, instrumentistas e produtores. Esses nomes surgem no decorrer do livro, alguns com maior importância, outros nem tanto.
Elis Regina foi a maior cantora brasileira
Júlio Maria, nas 416 páginas do livro, mostra os altos e baixos da artista ao longo de uma brilhante carreira musical. Sem, no entanto, deixar de contar algumas baixezas perpetradas por Elis, principalmente contra cantoras que, em seu ponto de vista, poderiam ser rivais em potencial.
Por exemplo: a cantora Cláudia, Nana Caymmi, Alaíde Costa, Maysa e até encrencou com a divina Elizeth Cardoso, da qual era admiradora. Não poderia esquecer a sua desavença com Nara Leão, e por aí vai. Elis Regina teve atritos até com os músicos que a acompanhavam, e muitos passaram a recusar convites para trabalhar com ela.
Todos os capítulos do livro trazem relatos que podem chocar o leitor, mas os mais contundentes são os três finais, do 23 ao 25.
Elis, mergulhada nas angústias, inseguranças, medos e incertezas, passou a cheirar cocaína e gradativamente foi perdendo o controle, seja no palco durante as apresentações, nos ensaios, estúdios de gravação ou nas festas. Ela passa a trilhar um caminho sem volta e que a levaria à morte aos 36 anos. Morte que chocou o Brasil.
Resumindo: dizer que Elis Regina foi a maior cantora brasileira seria chover no molhado. Seria mais correto afirmar que Elis ainda é uma das melhores intérpretes da música brasileira. Assim fica melhor. Elis: Nada Será Como Antes consagra Júlio Maria como um dos maiores biógrafos nacionais. Se há dúvida, leiam a biografia de Ney Matogrosso escrita por ele, pois qualquer questionamento nesse sentido será sanado ao final do último capítulo.
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